Diário de adolescente

31 08 2007

Querido bloc,

então a blogosfera começou agora e eu sou leitora macaca velha. Parece que ainda é muito cedo pra concluir alguma coisa, mas a gente tem deadline, aí alguma coisa tem que sair.
E parece que tudo acontece tanto ao-mesmo-tempo-agora… Pode ser que o sono tenha se ido para sempre. Mas ele volta. Volta?
Tudo o que eu posso dizer é que esses dias são de um aprendizado sem fim e me sinto na hora certa, no lugar certo. Muito também depende de mim. Grãozinho por grãzinho, uma coisa de cada vez, tentando manter o foco, a visão crítica eu vou construindo meu mundo. Escrevo, escrevo, escrevo. Vontade de virar máquina de escrever pra-sempre-agora.
O que eu sei do mundo?
Sei que com uma coisa de cada vez fica mais fácil. E guardo no coração as palavras da mãe: a vida dura pra quem mole. *Suspiro*
Agora, vai-que-vai.





4h07

28 08 2007

Insone.
A cidade dorme, mas um passarinho improvável na região da Paulista acordou e canta lá fora. Particularmente, eu queria estar dormindo.
Quero escrever. O gosto do trago continua na boca. A garganta quente. Ponho ou não a virgula? A garganta, quente.
Queria gostar de nadar como esses meninos que meditam na água. Natação no mar. O ninar da água e o esforço do corpo pra se mover na massa.
Ele descreve a sensação de nadar. A sensação. Ele escreve.
Rabisco que rabisco sem parar. Mas além do passarinho lá fora (deve estar na gaiola numa varanda de um apartamento qualquer), só ouço o barulho das teclas aqui dentro.
O país da poesia pronta tem Porto Alegre com os ônibus vermelhos que levam para Tristeza.
4h17
A janela estala. Deve ser por causa do clima louco de São Paulo que amanhece com 29˚ e vai dormir com 10˚. Esse material da janela expande e depois chia pra voltar ao normal. Tomamos há umas quatro horas um café e um capuccino no Fran’s 24h. O sono vem vindo manso. Ela quer ler mais. Queria ter me concentrado mais.
4h21
Pálpebras fechando. Ando, endo, indo. A amiga do quarto ao lado é um poço de delicadeza. Barulho de ônibus.
4h22
A cidade acordada como nunca: o passarinho não pára. O tempo urge.





The best you can is not enough

27 08 2007

Tensa, tensa, tensa.





Ainda quinta

17 08 2007

A Rê me deixou na Brigadeiro com a Paulista e eu vim me acompanhando até em casa. Quando toquei o interfone, caiu a ficha que tinha andado o tempo todo sem iPod, bolha de música que me desconecta desse mundo. Vim perturbada pensado no zietgeist, com uma Marisa Monte imaginária cantando “danço eu, dança você na dança da solidão…” Pra mim, não tem você.
*Click*
O porteiro abriu, eu disse “boa noite”. Ele deve ter me estranhado sem os fones vazando som no último volume. O elevador estava 12˚. Não quero me olhar no espelho do hall, enquanto espero. Espero. Espero. Espeeeero. Esperooooo. Como sempre, devagar, vai cruzando a vertical até chegar ao 9˚.





Flyer

16 08 2007

O senhor japonês que entrega panfletos da Avon em frente ao Metrô Brigadeiro está sempre ali pela manhã. Todos os dias, ele me oferece um dos seus folhetos verdes com ofertas da máfia chinesa da galeria, mas recuso. Acho que os produtos devem ser Avon Made in China.
Ele usa boné vermelho por cima do cabelo branquinho, blusa amarela e calça cáqui. Deve ser uniforme. A pele já tem as manchas escuras da idade.
Dá uma melancolia vê-lo parado estendendo o braço pra que as pessoas peguem o papel com ofertas. Tento dizer “não, obrigada”, tenho apenas desviado o olhar. Ele sempre está lá, calado, com o braço esticado e um olhar vazio.





Oxibiodegradei

16 08 2007

Os executivos da empresa de aditivo químico para plástico são.
O instituto que cuida das questões das indústrias da cadeia do plástico é.
Os pesquisadores que desenvolveram polímero a partir da cana-de-açúcar são.
O setor da economia que dá desconto para quem traz a sacola de casa é.
O livro “O plástico em sua vida” é.
Os secretários municipal e estadual do meio ambiente são.
Os supermercados que adotaram as sacolas feitas com o aditivo são.
Eu sou.
Tu és.
Ele é.
Nós somos.
Vós sois.
Eles são.





Meu herói delicado

15 08 2007

São Paulo, 31 de julho de 2007.

“A vida é um moinho” embala o começo da viagem de cerca de três horas.

Neste instante, papai deve estar incomodado na “cama curta”, como ele mesmo já comentou com a mamãe, da UTI. Não é de hoje que notamos que ele anda mais frágil. Na última visita, parecia assustado com a cidade grande, que ele conheceu “cheia de mato”. Segurava a minha mão quando andávamos pelas ruas. Lembro do toque macio das mãos dele na minha, que parecia tão pequenina na infância. Hoje, o toque é o mesmo, mas sou eu quem segura a mão dele.
O carinho dele era diferente. Quando eu era bem pequena mesmo, costumava me carregar nos ombros. Lembro da visão que tinha de cima, tudo e todos bem pequenos lá embaaaaaixo.
Ele é cheio de contar 50 mil histórias, mas quase nunca fala sobre sentimentos. Eu, criança, achava que ele nunca, nunquinha, tinha derramado uma lágrima sequer na vida.
As lembranças mais queridas parecem ser as de Divinolândia. Depois São Bernardo, viagens feitas de carona com uns amigos dele que montavam móveis (na época do ABC também). De Taquarituba à Praia Grande, já esteve em quase todo o estado, conta cheio de orgulho.
É vaidoso. A foto do certificado de reservista está perfeita, apesar da tonalidade amarela. De vez em quando ele vem, com a foto na mão, conversar sobre aquele tempo. Ainda bem que eu não me canso de ouvir. Tenho até saudades de algumas. A do chapéu na ponte, a da polenta da nona, as da escola e das professoras, das brincadeiras com os irmãos na roça.
Agora eu sou a adulta, mas ele continua sendo meu HERÓI.

“Ai, que saudades da Amélia” tinha que ser a próxima da playlist.





2+2=5

14 08 2007

Quando estávamos abraçados naquele café, era manhã de uma noite mágica. Como sempre (não só contigo, já tomei muitos nessa vida), pedi um capuccino com creme. Você, café preto. Nossa conversa era sobre o quanto a paixão pode ser arrasadora. A vida pára. E eu disse “calma, faz só dez dias, ainda é muito recente o fim da história”. Você respondeu que quando se apaixona dez dias são cem anos. Mas as nossas vidas continuaram na direção em que estavam mesmo. Ou a sua voltou cem anos no tempo?





*

7 08 2007

Roda da vida gira. Roda e gira. E a gente vai dançando e rodando. Dançando e rodando. Gira. Roda a vida.