Nós fomos buscá-lo ainda filhote em Divinolândia. Ele era tão pequeno, pêlo pretinho, com duas manchas terracotas em cima dos olhinhos e bem barrigudinho. Parecia tão frágil. Nem era muito esperto. Só queria saber de dormir dentro da caixa de papelão durante a viagem pra casa. Com certeza ia continuar pequeno mesmo depois de grande, já que a mãe era uma cotoquinha. Faz algum tempo, ouvimos falar que ela foi atropelada na estrada de Sertaozinho.
Não imaginava que ele ficaria tão valente. Será que foi o nome? Lembro de cogitarmos chamá-lo de Átila, mas tinha cara de Hércules mesmo. Hoje, é apenas um vira-lata ranzinza. E muito, muito ciumento. Principalmente quando se trata do “irmão” mais novo: Duque, tão vira-lata quanto ele e quatro vezes maior. A briga dos dois já rendeu até um deslocamento de patela, devidamente operado no hospital veterinário de São João.
Aliás, ele já teve doença de carrapato, câncer, doença venérea canina, quebrou a patinha e é cheios de cicatrizes de brigas por causa de “mulher”.
Quando estava quase na porta aqui do prédio, pensei no apartamento vazio – tudo ia estar da mesma forma de hoje de manhã, tudo no lugar. Um homem vinha na minha direção com um cachorrinho de madame preso numa coleira vermelha. Fiquei com saudade do meu velhinho ranzinza.
Nesse exato instante ele deve estar dormindo na bacia azul, na varanda. Apesar de ter uma casinha só dele, enfeitada com corações e estrelinhas, Hércules prefere a bacia toda quebrada da minha infância. Aleatoriamente, levanta no meio da noite e late no escuro com um certo desespero. Alguém acorda, acende a luz de fora e ele volta a dormir.