Bons ares trazem…

2 02 2008

Boas indicações de onde ir em Buenos Aires, me levaram até a Libreria Boutique Del Libro. Trata-se de uma livraria no coração de Palermo, bairro residencial descolado porteño.
Tem o charme da Vila Madalena paulistana, com um ar de Rua Augusta – porque você sabe que tem coisas que só vai encontrar ali. Altamente recomendável para folhear livros e tomar um café sem muitos turistas brasileiros em volta (algumas vezes tinha a impressão que há mais brasileiros na Argentina do que argentinos, mesma sensação de quando era criança e fui passar férias em Balneário Camboriú, mais argentinos que brasileiros, por supuesto).
Quase todos uns livros lá podem ser considerados “um achado” porque o real vale muito mais do que o peso. Estou terminando de ler “No hay cuchillo sin rosas”, um literal livro de papelão. O que primeiro me chamou a atenção foi a capa linda.

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Depois comecei a folhear e fui ficando mais curiosa. É uma antologia de contos de novos escritores argentinos. Exatamente o que procurava, oras. Passeando pelas livrarias de Buenos Aires, ficava me perguntando quem seriam os novos autores de lá e sobre o que estariam escrevendo?
Os contos são recheados de memórias de infâncias dos autores, fotologs, referências à velha literatura e, o mais importante, uma delícia de ler. E como eles mesmos diriam, vále, vále!





Do Fernando Pessoa que há nela

1 02 2008

A mulher que se crê urbana caminha pela Paulista em obras sonhando em fazer uma viagem de volta ao mundo. É tanta terra pra conhecer, tanta gente na Terra. São 20 milhões de pessoas e mesmo assim ela está só. Quer acreditar que não precisa estar com alguém pra ser feliz porque tem os melhores amigos do mundo. Isso e ela mesma devem bastar. Por que estamos aqui, afinal? Assustada, questiona se objetivo pode ser apenas ter uma casa no campo. Na maior parte do tempo, ela se sente um Alberto Caeiro fractal.
Diga-me, será que pensar é mesmo estar doente dos olhos? Deveria ela encarar os prédios como árvores na beira do abismo vistas pelo pastor de ovelhas? Talvez o mundo esteja pós-moderno demais. Talvez não.
Ela, inocente, ama a cidade.

II – O Meu Olhar, por Alberto Caeiro

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de, vez em quando olhando para trás…
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem…
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras…
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo…

Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender …

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos…
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar …
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar…





Serenar

1 02 2008

Ele é meu melhor amigo. A-M-I-G-O! A gente falava do mesmo jeito e, até na aparência, somos muito parecidos. Virava-e-mexia, as velhinhas da igreja de Bauru vinham perguntar do meu irmão. Acontece que sou filha única, tia. Tá me confundindo com uma das irmãs dele, né? Foram tantas vezes que, depois de um tempo, resolvemos combinar e virar irmãos sanguíneos para a sociedade.
Em Bauru ainda, sempre passava em casa depois de ir ao Paulistão e se demorava horas na nossa internet. Pô, Fê! Eu também quero usar! Péra, Eli, que é minha vez! E soltava a risada só sua.
Quando dormia em casa, ria sozinho das putas que ficavam conversando sobre implante de silicone de carro nos peitos, embaixo da janela. Ele as imitava como ninguém e ria sozinho.
Companheiraço de baladas, está sempre animado pra o que quer que seja. Vamos no Villa? Vamos na Festa da Atlética! Vamos fazer um churrasco! Pode ser no seu prédio mesmo? Vamos pra chácara!
Ele odiava engenharia, mas estudava. Reclamava, é verdade, mas em época de prova, fazia um esforço. E tenho certeza que foi muito difícil deixar a Unesp pra trás. Não era só a universidade. Não era só o apartamento que ele adorava, com o sofá de couro preto e o que tinha mesmo naquela geladeira? Não era só desistir da engenharia. Ele escolheu um outro caminho, optou pelo desafio de buscar fazer o que realmente gosta.
Eu sei que posso contar com ele. Não importa onde. Minha primeira vez no centro de São Paulo vazio foi com ele. Não lembro onde íamos pegar um ônibus para o acampamento, só sei que descemos na 25 de março num domingo ou sábado muito cedo. Estávamos sempre cantando ou eu o ouvia contar histórias do arco da velha, num estilo Peixe Grande, sobre tudo e todos. Mas eu sempre gostei mais de ouvi-lo falar sobre ele mesmo. Como estava se sentindo, se estava feliz, o que queria mudar, o que queria fazer…
Agora, ele está dormindo. Só dormindo mesmo pra parar quieto. Tem 24 anos, mas é um menino.
E eu estou aqui acordada, velando seu sono em sonho, porque ele está muito longe de São Paulo.

Acorda, Fê.
Fê, acorda logo.





Cidade gris

1 02 2008

A maior distância percorrida hoje foi do oitavo andar até a portaria. E ainda foi muito. Esse tempo cinza de São Paulo está parecendo reflexo dos prédios no céu.
Ontem foi um dia excepcional. Talvez por isso, tenha preferido ficar no ninho hoje. Mas, que venha logo o sol.

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