A dor permeia cada segundo do meu dia. Cada milésimo de tempo corrido. Finjo que não percebo pra deixar o rio continuar correndo. Viver nunca mais será a mesma coisa. A sensação de falta interfere em tudo. No dia-a-dia, correria, ela se disfarça. E, de vez em quando, vem de uma vez, insustentável, no turbilhão que me tornei.
Ele, certamente, rema na terceira margem do rio.
Com ele, se foi um pedaço da minha vida. Memórias, nomes de planta, de passarinho, lembranças de lugares, de pessoas, músicas. O suco de laranja que ele adoçava com mel. A felicidade simples de estar em casa. A alegria de falar com quem se ama pelo telefone. Alguma novidade? Não, tudo velho. As piadas de sempre. Tudo virou coisa da minha cabeça, da memória que agora é só minha. Indivisível.
Quando eu voltava pra casa, a gente ficava com a TV ligada nos telejornais e nunca prestava atenção em nada. Ele tinha tantas histórias mais interessantes pra contar. Eu já tinha ouvido praticamente todas, um milhão de vezes, mas não me cansava estar com ele ali. Por mais que a história fosse conhecida, nunca era do mesmo jeito. O tom da voz, as pausas, as risadas, as lições simples que permeavam as frases. A forma como me olhava de lado de vez em quando, com os olhos nem azuis, nem verdes, nem castanhos, nem cinza. Não existe um nome de cor para o olhar dele, protagonista das histórias que eu nunca me cansaria de ouvir.
De manhã, conversávamos cochichando. Mesmo que só estivéssemos os dois em casa. Porque era de manhã e era assim que tinha que ser.
Gostava de dividi-las comigo e com as pessoas amigas. Algumas, no entanto, contou só pra mim. Eu guardei, como ele, tudo dentro do meu coração. Agora, faço um trabalho solitário de torná-las minhas porque ele não existe mais.